Não consigo estar entre os demais, não consigo sair do casulo, pois sou um eterno projeto inacabado, fui feito de forma mal feita, me sinto limitado por tudo aquilo que apenas me é permitido ser, o que não é muito. Por isso prefiro me manter sozinho e longe dos olhares, longe da realidade que tenta o tempo todo quebrar a figura mental que tenho de mim mesmo, sou muito mais enriquecido aqui dentro, tenho muito mais cores e só necessito da minha própria permissão para ser e explorar tudo aquilo que me arregala os olhos e cintilam minha retina. Penso que se eu tivesse nascido ao inverso talvez fosse mais fácil, talvez me fosse mais permitido experimentar além do catálogo local, digo isso, pois corpos invertidos são tão mais vivos, únicos e autênticos na arte de cuidar e adornar seus corpos, enquanto minha categoria é acinzentada, é industrializada para replicação em massa. Sei que muitas pessoas também não refletem ao espelho, mesmo aqueles em inversão, mas, para mim, refletir algo não é apenas uma escolha, é talvez o motivo de eu estar aqui, algo precisa ser criado, o novo precisa ser inventado, e quando falo precisa falo com ênfase na necessidade e na urgência solicitada pelo resultado da divisão que opera em quem almeja ser um indivíduo. Uma única vez, me foi sugerida a escolha de ser, por alguém não tão próximo, mas com olhos de camaleoa, fazendo seu papel num mundo onde há tantos à toa. Não me esqueço e nunca me esquecerei, o que é ser ouvido mesmo sem ter falado e cuidado mesmo sem ter se acidentado. Será que um dia irei conseguir organizar o caos em que fui posto, sentir novos sabores e descobrir meu próprio rosto, ou viverei para se alimentar apenas daquilo que não tem gosto?

