10 de dez. de 2024

Parece ser comum os seres humanos se arrependerem de algo em vossos passados, se deleitarem sob as coisas que fariam diferente, e eu, querendo honrar meu pertencimento à espécie humana, também tenho me debruçado a me questionar. Hoje, no auge do meu descontentamento, devo admitir, eu faria sim coisas diferentes. Queria ter infernizado mais as pessoas ao meu redor, queria não ter dado sossego a ninguém, queria não ter permanecido calado e sido tão paciente, queria ter atropelado as vozes dos outros, queria não ter aberto mão da minha maior arma que é minha própria indignação perante o mundo, queria ter cuspido fogo e assistido todos queimarem. Me pus a ouvir conselhos de pessoas que nem de si mesmas entendem, pus sorrisos não só no meu mas em outros rostos sem ter nenhuma obrigação para com tal. Senti em meus próprios corpos, tanto físico como emocional, às consequências de manter uma atmosfera agradável e aturar todo lixo sonoro que atiravam aos meus ouvidos. O medo do ser humano de ser odiado é o trampolim para imbecilidade, mas, pior que isso, há apenas a indiferença, não há nada pior do que ser mediano, não há nada pior do que ter que se conformar e ser usado em narrativas de pessoas que juram serem as benfeitoras, as mais adequadas, as mais justas. O papel de mediador não me cabe, pois já não há nenhuma gota de paciência mais em meu ser, não há poder capaz de me manter sob controle. Suas intenções são evidentes e ressaltadas, nenhum palavra é dirigida por acaso, nela já há um destino final antes mesmo da sua emissão, e não existem mentiras, muito menos verdades, só aquilo que lhe contam e todo resto que prevalece em congruência com a vontade. A angústia tão rejeitada, denuncia um desejo que invade, invade a esfera social, invade o ser, cobra sua resolução e faz o sintoma aparecer. É porque há mais da criança no adulto do que se imagina, é porque algo sempre precisa ser dito ou não se reafirma. Só sou capaz de viver pois sou sincero com a falta que carrego, e desde que não há pessoa se quer que tenha atingido tal completude, não devo me conformar com experiências de outrem, nem se comportar como se devesse agradecer por estar vivo. A sobrevivência nubla a constatação de que há morte ainda em vida, o esvaziamento de si é sucedido pelo preenchimento com outros, não deixando nenhuma tela a ser pintada, nenhuma frase a ser finalizada, restando cópias do ordinário, do banal, daquilo que é tudo menos real.