É tão apavorante ter consciência de si a todo tempo, dos relevos imperfeitos desenhados no mapa que sou. Dói ter contato com o abismo de mim a todo tempo e é por isso que eu desejaria cegamente ser mais alienado a minha própria figura. Mas a mim, percebo cada vez mais, que cabe a obrigação de me tolerar, não é fácil, mas eu tento. Percebo-me com muitos furos, nunca total, sempre a me denunciar. Talvez eu tenha de ser o pior, pois é tudo que tenho, uma vez que o melhor também não basta. Ingênuo eu achar que preciso abrir a boca para dizer algo, minha existência na matéria ja se encarrega de comunicar meus tropeços. Sinto a dor de estar na vida e não consigo me tirar dela, ela me tem, ela me doma, e nunca me verei selvagem como meus ídolos, nunca me livrarei do laço que é o ato de civilizar. No fim, tento entender a tudo e a todos, é como se eu em breve lapsos vivesse a vida de outrem, e checasse a profundidade de cada ferida única, mas a que em mim permanece continua doendo e sem previsão de cicatrizar. Sou uma grande decepção pra mim mesmo, escravo dos meus próprios desejos, tatuado com meus anseios e medos, que em hipótese alguma me permitem repousar. Queria eu, só por um milésimo, me livrar de todo esse peso que sinto nas costas pois cada passo é tão sofrido, é como se eu estivesse preenchido de tormento ou cambaleasse ao puxar comigo algum tipo de monumento, moldado com as angústias de todos que se empenham ou ja se empenharam em tentar aceitar a impossibilidade de entender a vida.

