Olhou para ela como se ela pudesse ser algo para ele, sua coisa. Ainda não havia se dado conta de que, na verdade, olhava para si, porém através dela. Como alcançar a satisfação da minha carne manuseando esse objeto, pensava ele. Ela, cujo único papel ali era ser o novo, ser o ainda não tido, fazia isso com maestria, percorria os arredores esbanjando simpatia. Sorrisos que cativam, afinal, estava lá por um motivo e sabia muito bem, suas flechas jamais mudariam o curso de uma rota previamente destinada, uma vez que, pactos desse tipo, não são quebrados com o uso de força bruta. Já ele, como não sabia o que queria, poderia querer muitas coisas, então projetava-a em seu futuro, que era com certeza ordinário, mas havia de ter ela ao seu lado, na verdade, não ela, mas a coisa dela, coisa essa que era estática e inócua de desejo, diferente dele. Devo admitir em nome dele que ela se preenchia daquilo que faltava nas outras, mas isso não importaria posteriormente, já que o lugar que ela ocuparia seria facilmente ocupado por qualquer outra coisa, até as que não carregam vida dentro de si. O fato é que, em poucos minutos, a avistou, encantou-se com seus traços raros, deu-lhe utilidade, vislumbrou o desenrolar, e permaneceu ali, um belo fugitivo dos próprios desejos. Aquela que havia virado um objeto, felizmente saiu ilesa, mas não ele, de mim não escaparia, não após revelar tanto num só olhar.

